quinta-feira, 8 de julho de 2010

Citação apócrifa?


O mais pequeno dos felinos é uma obra de arte, terá dito Leonardo da Vinci.
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Leonardo da Vinci,
Estudo dos Movimentos e das Posições dos Gatos
(The Royal Library, Windsor Castle)

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Tomem lá do O'Neill!

GATO

Que fazes por aqui, ó gato?
Que ambiguidade vens explorar?
Senhor de ti, avanças, cauto,
meio agastado e sempre a disfarçar
o que afinal não tens e eu te empresto,
ó gato, pesadelo lento e lesto,
fofo no pelo, frio no olhar!

De que obscuras forças és a morada?
Qual o crime de que foste testemunha?
Que deus te deu a repentina unha
que rubrica esta mão, aquela cara?
Gato, cúmplice de um medo
ainda sem palavras, sem enredos,
quem somos nós, teus donos ou teus servos?

Alexandre O'Neill, Poesias Completas 1951/1986 (INCM, 1990)
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Servos, claro... Que pergunta tola, Alexandre!
Nota 1 - A minha edição tem uma gralha, portanto não sei se o "obscuras forças" da segunda estrofe era assim ou no singular.
Nota 2 - Um post por dia, eis o meu objectivo para este Verão. Veremos por quanto tempo o consigo perseguir sem me distanciar demasiado. :)

Katze und Vogel

Paul Klee, 1928 (MOMA)

terça-feira, 6 de julho de 2010

Mais um em francês - mas este só aparentemente naïf :)

LE CHAT ET L'OISEAU

Un village écoute désolé
Le chant d'un oiseau blessé
C'est le seul oiseau du village
Et c'est le seul chat du village
Qui l'a à moitié dévoré
Et l'oiseau cesse de chanter
Le chat cesse de ronronner
Et de se lécher le museau
Et le village fait à l'oiseau
De merveilleuses funérailles
Et le chat qui est invité
Marche derrière le petit cercueil de paille
Où l'oiseau mort est allongé
Porté par une petite fille
Qui n'arrête pas de pleurer
Si j'avais su que cela te fasse tant de peine
Lui dit le chat
Je l'aurais mangé tout entier
Et puis je t'aurais raconté
Que je l'avais vu s'envoler
S'envoler jusqu'au bout du monde
Là-bas où c'est tellement loin
Que jamais on n'en revient
Tu aurais eu moins de chagrin
Simplement de la tristesse et des regrets

Il ne faut jamais faire les choses à moitié.


Jacques Prévert, Histoires (Gallimard, 1963)

Adoro o pragmatismo cruel e impiedoso, dissimulado sob uma candura infantil, deste poema. Prévert é tudo menos simples.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Cats and Dogs by Camille

Palavras com música, cães e gatos

CATS AND DOGS

Cats and dogs are not our friends
They just pretend
They just pretend
It's just emotions we invent
Like photographs we put on shelves
Cats and dogs are not our friends
Scratch their ears

they'll wave their tails
And if it rains again next weekend
It's all because of them
Little doggy
Come to mummy
Cats and dogs are not our friends

They just pretend
They just pretend
It's just emotions we invent
So we forget we’re by ourselves
Little catty
Come to daddy
Miaou miaou

Ouaf ouaf ouaf ouaf
You feed your dog
You feed your cat
You feed your kids
You feed your wife
You feed your pets
Aren't you fed up to
feed the world around
You feed the world around !

Camille, Music Hole

domingo, 4 de julho de 2010

Dois aforismos de Adília Lopes

*t
(autobiografia sumária de Adília Lopes 2)
t
Não deixo a gata do rés-do-chão brincar com as minhas baratas porque acho que as minhas baratas não gostam de brincar com ela.
*
A minha gata morreu. Agora já me posso suicidar.

t
Adília Lopes, Irmã Barata, Irmã Batata. (Angelus Novus, 2000)

tt
E um meu: os meus gatos salvam-me a vida quase todos os dias.

domingo, 4 de abril de 2010

Baudelaire, claro


XLVII
LE CHAT

Dans ma cervelle se promène,
Ainsi qu'en son appartement,
Un beau chat, fort, doux et charmant.
Quand il miaule, on l'entend à peine,
c
Tant son timbre est tendre et discret;
Mais que sa voix s'apaise ou gronde,
Elle est toujours riche et profonde.
C'est là son charme et son secret.
c
Cette voix, qui perle et qui filtre
Dans mon fond le plus ténébreux,
Me remplit comme un vers nombreux
Et me réjouit comme un philtre.
c
Elle endort les plus cruels maux
Et contient toutes les extases;
Pour dire les plus longues phrases,
Elle n'a pas besoin de mots.
c
Non, il n'est pas d'archet qui morde
Sur mon coeur, parfait instrument
Et fasse plus royalement
Chanter sa plus vibrante corde,
c
Que ta voix, chat mystérieux,
Chat séraphique, chat étrange,
En qui tout est, comme en un ange,
Aussi subtil qu'harmonieux!

Charles Baudelaire, Les Fleurs du Mal (Librairie Générale Française, 1972)
c
De todos os poemas (e foram alguns) que Baudelaire escreveu sobre gatos, este tinha de ser o primeiro. Como acontece noutros casos, não é do poema em si que gosto, mas da ideia que lhe deu origem. Porquê? Porque dans ma cervelle se promène un chat.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

3 coisas que o meu pai me ensinou sobre gatos


Que os gatos têm a língua áspera, ao contrário dos cães que a têm macia. Que, se têm três cores, são gatas (que os amarelos são quase sempre machos, aprendi com a minha amiga X.). Que os gatos gostam de ser acariciados amigavelmente até por um sapato - debaixo da pesada sola do meu pai, o meu primeiro gato rebolava de prazer e oferecia a barriga livre de qualquer receio.
O meu pai e eu tínhamos pouco em comum. Castanhas, angústias por tudo e por nada e esta espécie de atenção dada aos animais a que alguns chamam amor.

Palavras que (por acaso) têm um gato lá dentro

Deixar espaço aqui ! :p
Comunicação académica
... E AQUI TB!
Gato dormindo debaixo de um pimenteiro: gato amarelo folhas verdíssimas pimentos vermelhos: sono redondo: sombras pequenas de pimentos vermelhos no sono do gato: folhas sombrias dentro do amarelo: pimentos dormindo num gato vermelho: verdes redondos no sono do pimenteiro: o amarelo: da cabeça do gato nascem pimentos verdíssimos de sono: sono vermelho: sombras amarelas no gato redondo de sono verdíssimo debaixo de um pimenteiro amarelo: a sombra do gato dando folhas redondas sonhando amarelo sobre dormindo os pimentos: água: secura sombria do gato vermelho: o sonho da água dorme no pimenteiro: a sombra da cal das paredes secas dorme no gato de água amarela: a cal dá pimentos que sonham nas folhas do gato: o sono da cal dá sombras redondas no gato enrolado no vermelho: a água é uma sombra o gato é uma folha o sono é um pimenteiro: a cal é o verdíssimo do sono seco dando sombra no amarelo: pimenteiro redondo: pimentos de cal enrolados no sonho do silêncio amarelo: o silêncio dá gatos que sonham pimentos que dão sono na cal que dá sombra nas folhas que dão água na secura do tempo vermelho: o tempo enrola-se debaixo da cabeça do pimenteiro que se enrola no gato de cal do sono amarelo: o sono de dentro dos pimentos debaixo do redondo verdíssimo enrolado no sonho: e dorme o pimenteiro com as sombras do gato redondo enrolando-se nas folhas: silêncio de sonho sono de tempo: tudo amarelo: noite do pimenteiro sono da cal folhas do gato sonho das sombras do verdíssimo vermelho: secura da noite: noite do gato na noite da cal com a noite das folhas dentro da noite do verdíssimo debaixo da noite do sonho diante da noite do pimenteiro após a noite da água conforme a noite debaixo com a noite enrolada contra a noite do amarelo desde a noite das sombras consoante a noite redonda para a noite de dentro durante a noite do vermelho detrás da noite dos tempos debaixo da noite sem à frente do com da noite conforme a noite conforme: a noite dos tempos: um gato de dentro desaparecendo num pimenteiro: pimenteiro desaparecendo: a cal morrendo no sonho das folhas pequenas: o silêncio de tudo no mundo inteiro:

et caeteramente vosso inteiro:

e aqui é para deixaaggtrrg e herberto helder:

e aqui tb se b for mt incótetsedo mce b ol em janeiro

mil novecentos e sessenta e três
deixar 2 linhas aqyui
sff
herberto helder, Poesia Toda (Assírio & Alvim, 1990)
e mais duas aqui
se n se importam
Não há imagens, ou cores, que mereçam herberto helder.
e mais
1 ou 2 aqui

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Le soleil y resta




Para começar


Le chat et le soleil
Le chat ouvrit les yeux,
Le soleil y entra.
Le chat ferma les yeux,
Le soleil y resta.

Voilà pourquoi, le soir
Quand le chat se réveille,
J'aperçois dans le noir
Deux morceaux de soleil.

Maurice Carême, Poèmes pour petits enfants (Hachette, 1976)

Não conheço mais nenhum livro de Maurice Carême. O título não engana o incauto leitor: todos os poemas são como este: de uma candura sem nódoa. Perfeito para inaugurações.